GESTÃO POR VALORES:  A REALIDADE EMPRESARIAL DO SÉCULO XXI

Recentemente li uma publicação no site Trendwatching, que fala sobre as grandes tendências de comportamento e consumo no mundo,  que me chamou a atenção:

Em 2016 as marcas que querem sobreviver iniciarão uma grande jornada para uma real ILUMINAÇÃO, tomando atitudes de significado para melhorar as vidas das pessoas e de todo o mundo”.

O movimento “Capitalismo Consciente” que criou força nos Estados Unidos a partir da crise de 2008, direcionou o foco da atenção para a humanização dos negócios fundamentada na congruência de propósitos individuais e organizacionais como motor da lucratividade corporativa. Vivemos um período de incertezas por questões envolvendo ganância, falta de ética, crise de identidade e medo de perda de credibilidade no mundo corporativo.

O propósito é a cola que mantém a empresa unida, o líquido amniótico que nutre de vida a força organizacional”

John Machey e Raj Sisodia 

Podemos verificar evidências de um movimento de redefinição de modelos de negócios e gestão, como a crescente demanda por profissionais da Área de Compliance (Conformidade de normas e regras legais) e as Áreas de Recursos Humanos se reposicionando com áreas de Desenvolvimento Humano e Organizacional, transcendendo a perspectiva funcional dos colaboradores para uma visão integral do Ser Humano, que tem propósito de vida, valores, emoções e sentimentos e se comporta e engaja a partir deles.

No entanto, ainda que haja empresas que preservem alguns valores originais de respeito e valorização das pessoas, ou que estejam aderindo à efetiva prática de valores humanos na gestão do negócio, as perguntas que não calam são:

  • “Como tornar esse sonho realidade uma vez que se trata de uma profunda mudança de Cultura? ”;
  • “Como equilibrar na balança Valores Econômico-Pragmáticos, Valores Ético-Sociais e, principalmente, Valores Humanos e Emocionais? ”;
  • “Como assegurar a sustentabilidade dessa mudança preservando aspectos positivos da nossa história? ”.

Cultura e Valores

Bem, evidentemente que o caminho da mudança passa invariavelmente pelas pessoas que dão vida às empresas, através dos relacionamentos e processos por elas criados e executados e, principalmente, de novas maneiras de pensar, sentir e agir diante dessa realidade.

Ao olharmos para a empresa como um organismo vivo, podemos estabelecer conexões interessantes entre o nosso propósito de vida e valores pessoais e a Missão, Visão e Valores Corporativos. Essa identificação, no entanto, não impactará os resultados caso o “Credo Corporativo” não seja refletido, em forma de respeito aos sentimentos e emoções das pessoas, nas interações e relacionamentos em qualquer nível, dentro e fora da organização.

Na década de 20, com mercados pouco competitivos e demanda relativamente baixa, o consumidor era um mero usuário comprador. À época imperavam o trabalho rotineiro e os modelos tradicionais de Gestão por Instrução, o clássico “obedece quem tem juízo”. No comando predominavam os que gostam de falar na primeira pessoa, mandam, fiscalizam e desmoralizam quando algo dá errado. Essa filosofia de gestão é representada com maestria por Chaplin em “Tempos Modernos”, onde valores como produção, conformidade e disciplina motivavam, ou deveriam motivar, as classes laboriosas.

Já no pós-guerra, a partir da década de 60, com a crescente industrialização e aumento de competitividade, o consumidor já passa a ser visto como cliente. O trabalho evolui para um caráter mais padronizado e complexo e passamos à Gestão por Objetivo, comandada por lideranças cuja competência-chave passou a ser a alocação eficiente de recursos. Como valores predominantes nesse período podemos citar a racionalização de processos, motivação por resultados e eficiência.

Vivemos nos dias de hoje uma realidade crescente de mercados mais exigentes e informados, downsizing de estruturas organizacionais e a consciência da interdependência entre os aspectos econômico-financeiros, ético- sociais e humanos e emocionais. Nesse sentido, passa a ser preponderante a capacidade dos líderes de conduzir e desenvolver equipes cada vez mais autônomas, conscientes e responsáveis. A capacidade de alinhar a auto-liderança, a liderança do negócio e a liderança de pessoas se consolida como o alicerce do Desenvolvimento Humano e Organizacional do século XXI.  Aos objetivos de negócio e eficiência, somam-se valores como colaboração, engajamento, criatividade, confiança, respeito e inovação.

As micro, pequenas e médias empresas, por terem uma estrutura menos complexa que a das grandes corporações, têm em mãos uma fantástica oportunidade de construir uma cultura que transpire valores em todos os relacionamentos. O protagonismo das pessoas e seus valores na construção e sustentabilidade dessa cultura  gerará um comprometimento extraordinário com os resultados, e uma forte identidade e posicionamento de mercado na onda dessa tendência.

“Os resultados vêm do aproveitamento de oportunidades e não da solução de problemas. A resolução de problemas apenas restaura a normalidade. Oportunidades significam explorar novos caminhos.”

Peter Drucker

O grande e real desafio desse século é, portanto, o Desenvolvimento Humano e Organizacional com efetiva congruência e prática de valores. Emerge assim uma nova forma de liderar em que o foco está em simplificar para se adaptar às mudanças, orientar para uma visão estratégica de futuro e conectar o propósito de vida das pessoas à missão corporativa, para que todos se sintam  cumprindo sua missão de vida através do trabalho.

 

Sérgio Azem –  Trainer, Coach Pessoal e Profissional, Palestrante e Instrutor de Hatha Yoga

Referências:

Capitalismo Consciente – John Machey e Raj Sisodia

Gestão por Valores – Simon L. Dolan e Salvador Garcia

Liderança e Espiritualidade Corporativa – Daniel Burkhard e Jair Moggi

 

 

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